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ANGOLA NOVO PAÍS AFRICANO

Título do jornal a Província de Angola de 1 de Fevereiro de 1975 com imagens dos três Presidentes dos partidos e do Governo de Transição que levaria à independência total de Angola.


Alto Comissário com os ministros e secretários de Estado do Governo de Transição.
(foto Prv. Angola, 1/2/1975)

SAIBAMOS MERECER A GRANDEZA DA LIBERDADE

Palavras do Alto Comissário de Angola

"Em Angola damos hoje início à aplicação do acordo assinado no Algarve, que responsabiliza os legítimos representantes do povo angolano – FNLA, MPLA e UNITA – na definição da política que dará base nacional à governação independente deste portentoso País.

Vamos desta forma retomar os objectivos que conduziram a Mombaça e ao Alvor, agora melhor compreendidos e cimentados nas tarefas que cada a um cabem, como parte dum conjunto empenhado em dar ao povo angolano o futuro que merece, e em dar a Angola uma projecção na África e no Mundo.

A partir de agora, os povos angolano e português, o mundo inteiro, esperam do Governo empossado a capacidade para conduzir Angola à independência, num clima de paz, justiça e respeito mútuo. Da expectativa e interesse por esta terra, é prova inestimável a presença de representantes dos muitos países que quiserem honrar o nosso convite, conferindo a esta cerimónia a projecção internacional a que o seu significado faz jus.

Do que souberem e forem capazes os homens que conduzirão os destinos desta Nação neste período que vai até à independência, dependerá em grande medida o que será Angola no futuro. Respeitando as privações e sofrimentos dum passado de luta que tornou possível este momento, há que olhar para o futuro, edificar no presente esperanças do amanhã e empenhar na construção da paz e do progresso as potencialidades do Homem; homem que olvida rancores, que elimina sequelas, que abate barreiras, em suma, homem angolano irmanado e orgulhoso na obra de redenção e construção de um País capaz de se impor no concerto das Nações.

Angola bem merece de cada um dos seus filhos, dos que nela nasceram ou têm como sua, toda a sorte de sacrifícios e dedicação sem limites no trabalho que todos se devem impor, em contribuição generosa para uma sociedade próspera, justa e equitativa.

Dizer da honra que sinto em vos acompanhar nos trabalhos ingentes e complexos que nos esperam, será talvez desnecessário, deixo-vos porém a certeza de que porei ao serviço de Angola, com os Ministros que nos acompanham, todas as minhas capacidades, num espírito de colaboração amizade e isenção que sempre norteou as minhas relações com os movimentos, agora responsáveis por este Governo de Transição.

O momento é de acção reflectida. A história dirá o que fizeram aos homens a quem coube conduzir os passos finais de Angola no caminho da independência. Saibamos todos merecer a grandeza da liberdade. Viva Angola".

(general Silva Cardoso)


Tomada de posse do Governo de Transição de Angola.
(foto Prv. Angola, 1/2/1975)


Membros do Colégio Presidencial de Angola.
(Foto Prv. Angola, 1/2/1975)

MENSAGEM DE JONA SAVIMBI

Servir o Povo e Administrar com Isenção.

"O momento que vivemos neste dia é o coroamento de sacrifícios sem par que o nosso Povo veio concedendo durante muitos anos. A tomada de posse do governo Angolano de Transição enche de orgulho todos os angolanos . Para aqueles que combateram o colonialismo de arma na mão sentem o reencontro de a sua luta não ter sido em vão.

Pessoalmente gostaria de estar do vosso lado nesta hora histórica. Mas ontem, como hoje, amanhã como sempre, servirei os interesses da unidade nacional. Exorto-vos a agir conforme o espírito de Mombaça e a respeitar integralmente o protocolo de Penina. O vosso lema não pode ser outro senão servir o vosso Povo, a justiça humana constituirão a garantia do vosso sucesso. Contareis sempre que precisareis com os meus fracos préstimos. Viva Angola, viva a Unidade Nacional".

MENSAGENS DE AGOSTINHO NETO

Só com o Povo no Poder teremos a Verdadeira Democracia.

"No nome do Bureau Político e do Comité Central do Movimento Popular e de Libertação de Angola é com a maior alegria, que neste 31 de Janeiro de 1975, os felicito pela honrosa responsabilidade assumida de orientar até 11 de Novembro do ano corrente, a descolonização do nosso país e a transferência do poder para as mãos do nosso povo.

A dura luta contra o colonialismo revelou a capacidade do nosso povo por si mesmo e, por isso, este deve sentir no Governo de Transição o intérprete fiel das suas aspirações, o defensor da sua independência, o continuador da luta contra as sequelas do colonialismo e contra o Imperialismo.

Adentro das limitações políticas impostas pelas circunstância, desejo exprimir-lhes os melhores votos pela coragem na defesa da nossa integridade territorial ameaçada, na acção pela unidade nacional e pela democracia do povo.

O MPLA colaborará em todas as tarefas pela independência, pela Democracia, e pela unidade. O orgulho do nosso povo de hoje que seja transformado em fontes de energias para aquisição da independência completa e encaminhado para o progresso económico, cultural e social do nosso país dentro a harmonia e da paz.

Saudações revolucionárias! A Vitória é certa. António Agostinho Neto, presidente do MPLA".

Segue-se um longo texto de caris Marxista-Leninista do qual destaco o seguinte: "Lutar pela verdadeira democracia significa estar estreita e tenazmente ligado à massas trabalhadoras, não usar pois de história colonial, para que essas sintam a sua pátria através do exercício do poder, pela qual lutou tantos anos. E não haverá recurso social, quer queiramos quer não.

Num determinado momento histórico da Humanidade, Hitler e Mussoline pensaram poder dominar os outros povos pela força das armas. No entanto, os povos demonstraram que não são as armas que determinaram o seu verdadeiro papel quando estão postas ao serviço do povo e defendem os interesses do povo."

MENSAGEM DE HOLDEN ROBERTO

Apoiemo-lo Todos Porque é o Nosso Governo.

"Irmãs Angolanas. Irmão Angolanos. 31 de Janeiro de 1975. Este dia que é o da instalação de um Governo de Transição cuja Sede é a Capital do nosso País, ficará marcado a partir de hoje pelo mais brilhante cristal da HISTÓRIA (em letras maiúsculas) da nossa querida Pátria! Este dia que pela sua solenidade se distingue de todos os outros, marca, sem sombra de dúvida, o princípio da efectivação do processo irreversível que conduzirá o nosso país à independência, processo que foi objecto das negociações levadas a cabo, resultante foi o ACORDO de Alvor, firmado em 15 deste mesmo mês de Janeiro e que o RENASCIMENTO da Pátria Angolana". A restante parte do discurso é praticamente uma repetição do que foi dito no Acordo de Alvor na Penina por isso dispensamos a sua transcrição.

A segunda parte do discurso dirigido ao povo é longo do qual destacamos o seguinte já no final: " Angolanas. Caros irmãos, Voltada está mais uma página na nossa História que pelos visto, não foi nem inteiramente negativa, nem inteiramente positiva; entretanto não percamos tempo em especulações porquanto só a própria história o poderá julgar. Começamos hoje uma nova página da nossa História. Unidos, façamos tudo para que esta seja uma página de Glória para a nossa Nação e de Honra para a nossa Pátria!

Para que viva Angola Livre, Unida e Próspera, a nossa palavra de ordem é mais do que nunca: DISCIPLINA, VIGILANCIA, UNIDADE. – TODOS POR (UMA) ANGOLA! – TODOS (UMA) ANGOLA POR TODOS! LIBERDADE E TERRA".

Num artigo publicado no Jornal a Província de Angola, página 3. deste mesmo dia, "Conversa Fiada, Uma crónica Semanal de Reis Ventura" (autor do livro "Os dias da Vergonha")  http://www.macua.org/livros/diasdavergonha.html   

" O GOVERNO DE TRANSIÇÃO. Angola recomeça finalmente a assumir as responsabilidades do próprio destino. O Governo que ontem tomou posse, pela sua constituição geral e pela estrutura de cada um dos seus ministérios já representa efectivamente as populações de Angola, através dos três movimentos de libertação. A continuação portuguesa no Alto Comissário, em dois Ministérios do sector tecnocrático e nas Forças Armadas, significa apenas que Portugal vai ajudar os novos governantes durante alguns meses, nos muitos problemas que sempre acompanharam o nascimento de uma nova Nação. Mas, na prática, todo o poder político está em mãos angolanas. Na linha do Acordo da Penina, os ministros e secretários de Estado nomeados pela FNLA, pelo MPLA e pela UNITA vão "governar efectivamente", de acordo com a sua consciência de angolanos e em defesa dos legítimos interesses da sua Pátria.(...).

JONAS SAVIMBI – ESTRATEGA DA PAZ. "Os chefes dos três movimentos emancipalistas – Holden Roberto, Agostinho Neto e Jonas Savimbi – tornaram-se naturalmente figuras carismáticas para os seus militantes, aderentes ao simplesmente simpatizantes. Quem será mais, não sei, nem o diria se soubesse porque para mim não é este o momento de vincar diferenças entre homens igualmente empenhados numa alta e complexa missão, que tem de ser cumprida num clima de apaziguante reconciliação fraterna.

Mas exprimir a minha crescente admiração pelo presidente da UNITA não pode melindrar ninguém. Porque essa minha admiração incida precisamente sobre a atitude, tão claramente assumida pelo dr. Jonas Malheiros Savimbi de empenhar toda a sua influência e todo o seu prestígio em fomentar a reconciliação e a paz entre as populações de Angola.

Tribuno que Deus fadou para falar ao coração das grandes multidões, este combatente com olhos de criança, bravura de leão e alma enternecida, cresce de dia para dia. É quanto mais simples e modesto se apresenta, mais se agiganta aos olhos do povo de Angola que, para o erguer em triunfo, nem sequer precisa de reduzir o seu caminho e apreço pelos outros líderes da independência de Angola. Savimbi é uma luz que não projecta sombras sobre ninguém. Exactamente é pelo seu claro espírito de colaboração com os outros movimentos, pela sua capacidade de harmonia e apaziguamento e pela sua fraterna aceitação de todos os homens de boa vontade – é no halo destas virtudes, preciosas para todos na presente conjuntura, que o presidente da UNITA consolida e aumenta o poder carismático em que se consagram as grandes figuras da História e se apoiam as melhores esperanças. Que Deus dê saúde e longa vida a Jonas Malheiro Savimbi!"

Mais tarde, Reis Ventura certamente teria problemas com o MPLA por causa deste artigo tal como todos aqueles que apoiaram ou simpatizaram com os outros partidos.