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No dia seguinte fui dar uma volta pela cidade para ver os amigos e amigas de infância que ainda por lá tinham ficado.

Foi com grande satisfação que os abracei recordando os velhos tempos. Aproveitei para ir tomar banho no rio Sabor nos mesmos sítios que conhecia tão bem só que desta vez eu levava parte do meu equipamento de mergulho, máscara, tubo de respiração e uma pequena arma própria para caçar lagostas. Mergulhei nos fundões do rebolo a zona mais profunda daquela parte do rio.

Fiquei deslumbrado de ver a beleza submarina que nunca tivera oportunidade de admirar a olho nu. Os barbos com cerca de meio metro (espécie de peixe da água doce) assustados com a minha presença, encostavam-se às rochas ou entravam nas pequenas cavidades para se protegerem. Aproximava-me deles com relativa facilidade e desferia-lhe o golpe mortal. Cacei apenas o suficiente para fazer um escabeche numa tasca que frequentávamos em Bragança que degustei junto com os meus amigos, regado com um bom vinho da região.

Estava a nadar com a máscara e o respirador rio acima. Uma lavadeira que estava numa das margens como não me via respirar e pensando que eu me estavesse a afogar começou a gritar pedindo socorro. Embora com os ouvidos dentro de água apercebi-me do que se estava a passar e, colocando a cabeça fora de água, fiz sinal à senhora dizendo-lhe que tudo estava bem. Ela nem queria acreditar no que via. Ainda lhe ouvi dizer: "oh messa inventam cada coisa"!

Como o meu amigo de Lisboa também estava de férias em Bragança, aproveitámos para dar uns passeios na minha scooter pelo concelho, frequentando algumas das romarias em aldeias e vilas que noutros tempos conhecemos quando tocávamos na banda do bombeiros.

O Verão estava no fim e como no Outono a temperatura na minha terra baixava muito, resolvi voltar para Lisboa só que desta vez não fiz a viagem na scooter por causa do frio e despachei-a pelo comboio.

Fiquei hospedado na mesma pensão que estava antes. Como já não estava habituado ao frio antecipei o meu regresso a Angola.

Regressei a Angola no navio Império em 26 de Janeiro de 1959, já em 2ª classe. Foi uma viagem muito agradável na companhia de algumas jovens que iam para Moçambique.

Chegado a Luanda, fui colocado na Direcção dos Serviços dos CTT na 2ª Repartição. Entretanto casei com uma colega nascida em Luanda que já namorava antes de ir de licença graciosa que também trabalhava na Direcção dos Serviços, indo morar na Avenida dos Combatentes num quarto andar por cima do café Paládium (na foto, o primeiro edifício de quatro andares do lado direito a seguir ao cruzamento). Todos os dias por volta da 07.00h via centenas de trabalhadores vindos dos musseques descendo a rua dos Combatentes com destino à cidade baixa para os seus empregos. Morávamos ainda nesta rua quando nasceram os nossos primeiro e segundo filhos.

 


Avenida dos Compatentes (foto Memórias de Angola, João Loureiro)


A minha esposa com o meu primeiro filho.
(foto autor).

Soube por intermédio do meu amigo Gamboa que trabalhava na secção de pessoal que estaria eminente a nossa transferência, minha e da minha mulher, para eu ir chefiar a estação dos CTT de vila de Mariano Machado (Ganda). Essa transferência vinha a estragar a nossa vida e, por isso, procurei adiá-la o mais possível, alegando falta de experiência nos serviços postais como determinava o regulamento porque o meu trabalho tinha sido sempre na Direcção dos Serviços. Fui colocado na secção de vales da Estação Central dos CTT que era precisamente o trabalho de fiscalização que eu fazia na Direcção dos Derviços.

O chefe da secção meu colega tinha a mesma categoria que eu. Quando me apresentei e lhe disse ao que vinha, surpreendido, perguntou:

- Então se tu estás a fiscalizar o meu serviço, que raio tu vens para aqui a fazer? Expliquei-lhe a razão e, por isso, arranjou-me qualquer coisa que fazer para passar o tempo.

Entretanto, a minha esposa que tinha o Curso do Magistério Primário concorrera para os Serviços de Educação e eu também tinha concorrido para técnico de telecomunicações porque estava habilitado com o curso de electrónica da National School Americana e, além disso, nunca fui muito vocacionado para os serviços postais.

A minha esposa teve de ir para a Maternidade de Luanda no dia 7/0/1960 onde teve o nosso primeiro filho. Nessa altura foi colocada numa escola perto do Bairro do Cruzeiro em Luanda e no dia 20 do mesmo mês tomou posso do lugar ficando assim gorada a nossa transferência para a Ganda para desgosto do chefe da secção de pessoal, que tinha feito tudo para nos transferir. Nunca cheguei a saber o motivo.

Pouco tempo depois, fui fazer provas para técnico de telecomunicações e encontrei lá um amigo radioamador que também ia prestar provas. Quando me viu disse:

- Não vale a pena eu ir fazer provas porque já sei que contigo não me safo. Havia apenas uma vaga para técnico que iria para o Lobito fazer a manutenção dos emissores de onda curta.

O meu amigo tinha estado já algum tempo a estagiar no centro emissor dos CTT de Luanda instalado no Bairro dos CTT. Eu estive lá de passagem apenas uns dias. Quem nos fez as provas de exame foi o então agente técnico Proença.

Como os resultados do concurso estavam demorados, o director dos serviços o tal coronel que já referi, chamou-nos juntamente com o Proença para afinal ele lhe dizer quem estava habilitado para ir para o Lobito. O Proença gaguejou e por fim disse:

- Bom, o Pissarro tens mais conhecimentos teóricos mas o Calado conhece melhor o equipamento pois faz algum tempo que está a estagiar no centro de telecomunicações.

- Muito bem, disse o director, então o Calado vai para o Lobito e o Pissarro como tem mais conhecimentos teóricos de electrónica vai para o VHF (feixes hertezianos de alta frequência) pois estamos a precisar de mais um técnico. O VHF era os olhos da cara do director. Mais uma vez a minha estrela estava lá bem no alto!


Antiga Direcção dos CTT actualmente Palácio das Telecomunicações (2006)

Fui transferido para a Direcção dos Serviços Técnicos de Telecomunicações para, com a ajuda do chefe dos serviços, que tinha feito um estágio na Marconi em Inglaterra estudar os manuais do equipamento que estavam em Inglês porque a Marconi não os traduziu. A categoria de técnico de telecomunicações era equivalente à de primeiro oficial dos serviços postais.

Naquele tempo (1958-1960) a vida em Angola era calma e decorria com normalidade havendo uma convivência sã entre todos sem distinção de raças. Na nossa convivência diária nunca notei haver ódios raciais. Havia já muitos africanos que ocupavam lugares públicos alguns de muita responsabilidade e não faltavam empregos para os trabalhadores tanto no comércio como na construção civil. No entanto, a economia, infelizmente era controlada pelos grandes lobbies de Lisboa. Praticamente grande parte dos bens de consumo eram importados da Metrópole. Não era autorizado o fabrico de vinho ou de azeite e de outras bebidas alcoólicas, apesar de nas proximidades de Moçâmedes (Namíbia) haver terras que tinham excelentes condições para plantio de vinha e oliveiras.

As grandes companhias exploravam as suas riquezas como os diamantes, minérios, café, algodão, etc. transferindo o capital para o exterior e não o aplicando em Angola para melhoria da vida das suas gentes. Apenas havia estradas com asfalto de Luanda até Caxito e Catete (?) e as restantes eram de terra batida. As pontes eram de madeira mesmo nas estradas principais. Esta situação não agradava a ninguém e, por isso, sem que se soubesse publicamente, estavam a ser organizados no exterior grupos de angolanos apoiados pelas grandes potências internacionais (que só tinham interesse nas riquezas de Angola como mais tarde se viu), com vista à independência de Angola. A PIDE e o Governo Geral de Angola bem como o Governo de Lisboa sabiam perfeitamente o que se passava mas, como era usual, abafavam qualquer informação vinda do exterior. A PIDE em Angola não actuava com a violência que se verificava no Continente. No entanto fez um grande trabalho no combate ao terrorismo.

Na madrugada de 3 para 4 de Fevereiro de 1961 ouvi tiros que me pareceram ter vindo da LAL que ficava quase em frente à minha casa. Pareceu-me estranho mas não liguei.

"No dia seguinte soubemos que sete agentes da autoridade foram cobardemente assassinados, traiçoeiramente, sem poderem esboçar um gesto de defesa, quando cumpriam o seu serviço de rotina. Caíram numa cilada, acorrendo a um chamamento de socorro, a uma fictícia desordem, em plena madrugada. Mortos com requinte de selvajaria, cortados à catanada, foram estes os primeiros mártires da causa portuguesa, as primeiras vítimas da horda assassina a soldo de potências estranhas de intenções conhecidas. Na manhã do dia 4 a notícia espalhou-se por toda a cidade como um relâmpago.

A surpresa foi tão grande que, a princípio, era difícil acreditar que fosse verdade. Mas lá estavam os cadáveres, sete corpos que horas antes ainda fervilhavam de vida, a atestar a notícia, tão cruel como revoltante. Começavam-se então a conhecer-se pormenores. Houvera ainda uma tentativa de assalto à Casa de Reclusão militar, onde fora morto um cabo do exército. Havia ainda alguns agentes da autoridade hospitalizados gravemente feridos. Houvera um soldado negro que fora um verdadeiro herói. Debaixo do fogo e das catanas dos invasores, conseguira meter-se no jeep e chegar, embora ferido, ao quartel onde dera o alarme.

De manhã, toda a zona das barrocas estava a ser motivo de aturada rusga por parte da Polícia. Luanda inteira já sabia dos acontecimentos e assistia excitada e revoltada ao desenrolar das coisas. Mas ainda não passava pela cabeça de ninguém, naquela altura, que aquilo seria o prenúncio de dias terríveis, dias que ficariam para sempre marcados na história de um país, dias que deixariam a terra de Angola regada com sangue dos seus habitantes, colhidos de surpresa por um bando de assassinos narcotizados e completamente enlouquecidos por promessas enganosas e impossíveis (...)."

Angola 1960/1965, Manuel Graça.

A Baixa de Cassange

"A operação que pôs cobro à revolta dos camponeses da Baixa de Cassange, em Angola, no início de 1961, terá sido o maior massacre cometido pelos militares portugueses no Ultramar. Mas a verdadeira dimensão desta tragédia que começou com uma greve nos campos de algodão e descambou em bombardeamentos de Napalm permanece desconhecida. Uma história de sangue, exploração e misticismo que marcou o princípio do fim do império colonial.

A primeira de todas as contrariedades que Salazar encontrou nesses tempos desastrosos de 1961 começa a insinuar-se nos finais do ano anterior, pouco depois da independência do Congo Belga depois designado Zaire e actualmente República Democrática do Congo, país com o qual o Norte de Angola partilha não só algumas centenas de quilómetros de fronteira como também afinidades étnicas e culturais.

A Baixa de Cassange, uma imensa depressão geográfica, tem oitenta mil quilómetros quadrados na sua maioria cobertos por campos de algodão distribuídos pelos distritos de Malange e da Lunda vigiados por uma escarpa abrupta de seiscentos metros de altura. Possuía então cerca de 150.000 almas e mantido por quase 35.000 agricultores e respectivas famílias, todos eles coagidos a cultivar e vender o algodão à empresa concessionária da zona: COTONANG (Companhia Geral dos Algodões de Angola, SARL.), sociedade de capitais luso-belgas, fundada em 1926. As gentes da Baixa de Cassange, mulheres e crianças incluídas, são retiradas das suas aldeias e obrigadas a cultivar o algodão em terrenos indicados pela empresa. Salários não existem. Os únicos rendimentos dos agricultores aparecem no final de cada campanha, com a venda obrigatória do algodão à COTONANG que estabelece preços reduzidos e frequentemente compra produto de primeira classe a valores de segunda.

Se alguma cheia ou imprevisto acontece nas lavras que tinham a seu cargo, os agricultores ficam entregues ao seu azar: a COTONANG não os compensava pela perda inesperada de um ano de trabalho nem tão-pouco lhes prestava assistência com fertilizantes ou pesticidas. Se o terreno que cultivavam começar a dar sinais de saturação, os capatazes da empresa forçam-nos a deslocar-se para locais a quinze ou vinte quilómetros das suas cubatas e se os campos junto às aldeias são bons para o algodão os agricultores depois de horas a fio de trabalho árduo vêem-se obrigados a percorrer grandes distâncias até às terras afastadas onde já é permitido que cultivem os seus alimentos. Os camponeses da Baixa de Cassage pouco mais são que escravos.

Esta zona é uma zona fértil para algodão mas também para as tão temidas actividades subversivas que a qualquer momento ameaçam transpor as fronteiras com o Congo independente. Vindos do país vizinho dois agitadores atravessam um afluente do rio Cuango e instalam-se na Baixa de Cassange em Dezembro de 1960. A mando de quem, isso ficará para sempre no segredo dos deuses: UPA, MPLA ou qualquer movimento congolês. Os dois homens chegados do Congo misturam fervor nacionalista com doses maciças de misticismo e dizem-se mandatados por Maria nome derivado do seu inspirador António Mariano, próximo da União das Populações de Angola (UPA).

Para receberem a salvadora, as populações são submetidas a rituais de iniciação e levadas a respeitar quinze mandamentos. As armas não abundam e as que existem são obsoletas. Mas os sacerdotes dizem ao seu rebanho para não temerem as retaliações dos colonos porque as armas dos brancos apenas deitam água.

Greve à Plantação do Algodão

Janeiro é tempo de começar a plantar o algodão. Em vez disso milhares de agricultores furtam-se ao trabalho, entram em greve, recusam-se a pagar a taxa pessoal anual ao Estado português e dizem que seguem as ordens de Maria mas também de Kasavubu e Lumumba, respectivamente o primeiro presidente e o primeiro chefe do governo do Congo livre.

Os protestos começam na zona do posto administrativo Milundo das mais isoladas e com menos população branca e logo se alastra a áreas com Tembo Aluma, Xandel, Iongo, Xa Muteba, Tala Mungongo e Luremo. Os camponeses da Baixa de Cassange queimam as sementes fornecidas pela COTONANG, agitam as catanas e as ferramentas de trabalho em marchas pelos caminhos de terra que dividem os campos de cultivo, rasgam as cadernetas de identificação, cortam as estradas, matam animais domésticos, destroem pontes e jangadas nos rios Lui, Cuango e Cambo, atacam lojas e armazéns à pedrada e invadem as poucas missões católicas existentes em toda a região, num rebuliço que afugenta alguns comerciantes.

Na noite de 12 de Janeiro um capataz mestiço da empresa é assassinado a tiro de zagalote quando tentava atravessar uma sanzala do posto de Milando ocupada pelos amotinados. O alerta está lançado. O enxovalho à autoridade dos brancos não pode continuar. Escreve o inspector Manuel Martins em mais um apontamento confidencial do Gabinete dos Negócios Políticos. "Os indígenas dançavam e continuavam ruidosamente, repetindo o refrão "mueneputu tuge ia gingilis" que significa: "o governo português é merda de passarinho".

A notícia de distúrbios em Milando chega a Lisboa no dia 12 de Janeiro por intermédio de um telegrama do Governador-Geral de Angola, Álvaro da Silva Tavares. A COTONANG pretende que a sublevação seja rapidamente esmagada e não se conforma com a paralisia das autoridades. A produção algodoeira encontra-se parada. A pedido do Governador-Geral as autoridades civis e militares em Luanda reúnem-se para debater a situação. Conclui-se pela necessidade de ocupar militarmente a região que não se pode protelar por mais tempo. Na madrugada de 4 de Fevereiro quando ainda se ouvem os tiros dos distúrbios de Luanda, os homens de 4ª Companhia de Caçadores Especiais (CCE) embarcam material e viaturas na estação de comboios do Bungo em Luanda, põem-se a caminho de Malange e serão os primeiros militares a chegar à Baixa de Cassange, junta-se à 3ª CCE há muito instalada nesta última cidade e fazem parte do Batalhão Eventual de Malange de que era comandante Camilo Rebocho Vaz.

Estas duas companhias especialmente a 3ª comandada pelo capitão Teles Grilo provocaram numerosas baixas, "umas centenas de negros" como diria Rebocho Vaz. A este número há que juntar um número nunca determinado de mortos pela acção de aviões da Força Aérea, com a utilização pela primeira vez das célebres bombas incendiárias Napalm.

Texto de Francisco Camacho (jornalista).

Fontes: Arquivos PIDE/DGS, Arquivo Oliveira Salazar, Arquivo Histórico Ultramarino, Arquivo Histórico da FAP, Arquivo Histórico Militar, John Marcum, "The Angola revolution", Edgar Cardoso, Presença da Força Aérea em Angola, Camilo Rebocho Vaz, Norte de Angola 1961: "A Verdade e os Mitos", Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes, "Guerra Colonial", Fernando Valença, "A Abrilada de 61".

Nota: Alguns dos factos aqui narrados relativos às condições em que se realizavam as culturas algodoeiras na região foram pessoalmente testemunhados pelo signatário que exercia as funções de Administrador de Posto no Cubango, Distrito da Lunda, nos anos de 1956-1957. Queluz, 2005.05.24. Alcídio Reis Esteves".

Novembro de 1960.

"Em Nova Iorque, no palácio de vidro das Nações Unidas, centro cada vez maior do caos internacional, os países do chamado bloco afro-asiático retomaram os seus costumados coros de escabrosas campanhas, mentirosas e vis contra Portugal em África. Mas desta vez ultrapassando todos os limites da decência, recalcando e amesquinhando a verdade que não queriam ver e que eram incapazes de compreender, cegos como estavam pelas ilusórias campanhas de falsidade a que, ilusóriamente, ousavam chamar de “anti-colonialistas”. Portugal era a vítima que tinha que ser atacada forçosamente, e por isso, forjavam-se as mais revoltantes mentiras, insuflavam-se as mais odientas campanhas. Comandados e orientados pelo bloco comunista, com simpatia e até aprovação de alguns países ocidentais, os países afro-asiáticos, quais “mabecos” rodeando a sua presa, gritavam aos quatro ventos as suas inconfessáveis intenções, usando para tal a tribuna de um organismo internacional de envergadura que, por ironia, e só por isso, se chamava Nações Unidas.


Manimestação no Governo Geral

A notícia de tais mentiras chegou a Luanda no dia 3 de Novembro de 1960, menos de 24 horas depois de serem ditas em Nova Iorque. O portuguesismo de cada um e de todos os habitantes da cidade, ferido no seu mais sagrado ponto, revoltou-se. E o largo fronteiro ao palácio do governo da Província foi cenário de uma grandiosa e espontânia manifestação de repulsa contra as blasfémias proferidas na ONU. Gente de todas as raças e de todas as cores, homens e mulheres, velhos e novos, gente de todas as condições sociais, ali estava para garantir o seu apoio incontestável ao Governo da Nação, na sua política de integração racial e de continuação de um Portugal imorredoiro e indivisível. Talvez nunca se tenha assistido a uma demonstração tão cabal de portuguesismo nesta velha cidade de Luanda. Havia lágrimas em todos os olhos. Lágrimas de revolta contra tão ignominiosas mentiras (...)".


Manifestação frente ao Governo Geral

15 de Março de 1961.

"Pela manhã chegaram a Luanda as primeiras notícias, terríveis e tão monstruosas que era difícil acreditarem-se. Colhidos de surpresa, incrédulos, não podíamos imaginar que tudo aquilo fosse verdadeiro. Era impossível! Estávamos em pleno século vinte e as notícias falavam de barbaridades inconcebíveis mesmo alguns séculos atrás. Não podia ser verdade...

Depressa desapareceu a dúvida. Os primeiros refugiados que chegaram trouxeram a confirmação: centenas de portugueses, europeus e africanos, de todas as idades, haviam sido barbaramente assassinados à catanada por bandos de terroristas. Na madrugada do dia 15, simultaneamente em vários locais e à mesma hora, grupos de bandoleiros tinham colhido de surpresa os habitantes das povoações e da roças assassinando-os com requintes de barbaridade. Quitexe, Nambuangongo, Dembos...Ouviam-se nomes. De fazendas, de pessoas, de famílias inteiras. Cada refugiado que chegava fazia a narrativa do que vira ainda mais atrás, mais arrepiante que a anterior. Luanda correu ao aeroporto esperar os que chegavam. Parentes, amigos, conhecidos, todos perguntavam pelos que ainda havia ficado lá. Morreram?(...).


Refugiados do Norte - Aeroporto de Belas

Era aterrador o "espectáculo" que se presenciava no aeroporto de Belas. Crianças que desconheciam o paradeiro dos pais e que uma alma caridosa ainda salvara a tempo; mulheres a quem havia morrido o marido e alma caridosa ainda salvara a tempo; mulheres a quem haviam morrido o marido e os filhos; homens a quem violaram e depois mataram a mulher e as filhas, algumas ainda de tenra idade. Horrível, simplesmente horrível tudo aquilo.

E o massacre continuava. Os primeiros reforços que seguiram para a região afectada tiveram de retroceder pois encontravam as estradas cortadas; alguns civis corajosos e administrativos que tentaram acudir, ao tomarem conhecimento dos sangrentos incidentes, foram mortos em picadas, mesmo antes que pudessem socorrer alguém. A chacina era indescritível e monstruosa. Crueldades sem conta e as mais terríveis barbaridades eram ponto comum de todos os depoimentos ouvidos.(...)".

Incrível o cinismo do falecido ex-Presidente de Angola, Agostinho Neto que na sua biografia em http://www2.ebonet.net/MPLA/bio_aneto.htm escreveu:

"Algumas fotografias conseguiram chegar à imprensa estrangeira, de entre as quais merece especial referência uma que foi inserta em diversos jornais (por exemplo, no Afrique Action, semanário que se publica em Tunes). Nessa fotografia, um grupo de jovens soldados portugueses sorriam para a câmera, segurando um deles uma estaca em que foi espetada a cabeça de um angolano. O horror transmitido por essa fotografia despertou muitas consciências para os crimes nefandos que se perpetuavam em Angola, Foi presisamente por mostrar essa fotografia a alguns amigos (Cabo Verde) que Neto foi preso na cidade da Praia e transferido depois para a prisão do Aljube em Lisboa onde deu entarda em 17 de Outubro de 1961."

Se isto aconteceu em 17 Outubro de 1961, certamente ele conheceria as fotos publicadas mais à frente do massacre do Úcua em 14/04/1961. Então estas fotos também não lhe causaram revolta e horror?